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O
sucesso é cego
Por Leila Navarro
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Quando uma pessoa está perdidamente apaixonada,
só tem olhos para o amor, só enxerga as qualidades
e virtudes do ser amado, é tudo lindo e maravilhoso. Não é capaz
de perceber fraquezas, defeitos nem contradições de
seu adorado, pois, como diz o velho ditado, “o amor é cego”.
O sucesso também é cego, sabia? É natural que,
quando a carreira deslancha e tudo dá certo, um sentimento
de empolgação tome conta de nós. O problema é que
podemos ficar cada vez mais focadas em nossos objetivos e motivadas
para novas conquistas. Passamos a só ter olhos para o sucesso
e deixamos de enxergar coisas importantes na vida.
Deixamos de enxergar os outros, por exemplo. O sucesso pode nos dar
a (falsa) idéia de que somos auto-suficientes, poderosas,
capazes de fazer tudo sozinhas: logo, não precisamos de conselhos,
sugestões, opiniões e muito menos ajuda dos outros...
Mesmo que não tenhamos a intenção de parecer
arrogantes ou donas da verdade, podemos acabar repelindo aqueles
que trabalham conosco, pois não lhe damos espaço. Estamos
sujeitas também ao afastamento dos amigos e de pessoas da
família, o que não é raro acontecer com quem
persegue o sucesso e acaba deixando a vida pessoal para segundo plano.
Eu diria inclusive que a obsessão pelo sucesso pode fazer
com que a gente “desaprenda” a se relacionar. Foi o que
se passou comigo há alguns anos. Divorciada, com filhos crescidos
e profissionalmente realizada, eu me achava plena e bem-resolvida.
Não sentia a menor falta de um relacionamento amoroso nem
estava à procura de um, até que conheci um homem especial
e me interessei por ele. No início, relutei em admitir que
estava apaixonada, como se mulher poderosa e bem-sucedida não
precisasse “dessas coisas”. Mas finalmente assumi meu
sentimento, e então parti para a conquista amorosa com a assertividade,
a objetividade e o “foco no resultado” de quem persegue
o sucesso na carreira profissional. Deu tudo errado, é claro!
Eu vivia numa espécie de piloto automático, num padrão
de reações e atitudes que funcionavam no trabalho,
mas não num relacionamento amoroso. Sem perceber, havia me
tornado uma pessoa calculista, cheia de expectativas, tão
focada em meus objetivos que não fui capaz de ter uma troca
verdadeira e enriquecedora com o homem por quem me apaixonei. Quis
conquistá-lo, mas o que fiz mesmo foi afastá-lo.
Deixamos também de enxergar a realidade, pois ela não é só o
que vemos: é também aquilo que os outros nos mostram.
Um típico exemplo disso se passou com uma amiga. Funcionária
de um banco há muitos anos, havia chegado a um cargo gerencial
e estava tendo muito sucesso. Um belo dia o banco foi comprado, sofreu
uma reestruturação e minha amiga foi transferida para
um setor menos importante. Havia algo estranho no ar, mas ela não
percebia nada de anormal: afinal, era uma profissional bem-sucedida
e não tinha com o que se preocupar. Meses depois foi transferida
de novo, e para um setor ainda menos importante. A família
e os amigos mais chegados tentaram alertá-la de que algo drástico
estava por vir, mas ela, muito autoconfiante, não deu atenção.
Semanas depois, foi demitida, e só então “caiu
a ficha”: estava recebendo claros sinais de que sua bem-sucedida
carreira na empresa estava no fim, mas não percebia isso. É a
tal história: o sucesso reforça nossa autoconfiança,
o que é ótimo, mas torna-se perigoso quando nos faz
incapazes de enxergar os alertas que os outros nos dão.
Pior ainda é quando nos tornamos incapazes de enxergar nós
mesmas. O sucesso nos faz ter olhos para o que queremos, mas desvia
a atenção daquilo que sentimos. A mente pede descanso,
o corpo padece, o relacionamento afetivo balança, os amigos
se afastam... E a gente faz de conta que nada está acontecendo.
Houve uma época em que eu estava tão centrada em minha
carreira de palestrante que nem percebia quando ficava doente. Lembro-me
da vez em que fiz um check-up completíssimo e levei os resultados
para a minha médica ortomolecular. Pela expressão que
ela fazia enquanto lia os exames, parecia que minha saúde
não andava lá muito bem. A certa altura, perguntou
se eu não sentida dores nas juntas, pois havia indícios
de que estava com artrose. Respondi: "Imagine se eu tenho tempo
de sentir dor!". Hoje, fico imaginando se, em vez de artrose,
fosse uma doença mais séria.
Pois é, ignoramos até as nossas dores e desconfortos,
pois achamos que as coisas têm mesmo de ser assim - é o
preço que pagamos pelo sucesso. Continuamos centradas no objetivo
de "chegar lá" e "manter-se lá",
até o dia em que a casa cai, ficamos doentes ou temos uma
crise na vida pessoal. Então, somos obrigadas a enfrentar
aquilo que tentávamos ignorar.
Por tudo isso, fique atenta: o sucesso é cego, e aliás
surdo também. É maravilhoso que ele aconteça,
desde que não seja às custas de outras coisas importantes
na vida.
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