Desde que começamos a fugir dos nossos predadores nos períodos
pré-históricos entramos em contato com aquele que seria
eternamente nosso grande desafio: a adaptação!
Por sermos dotados de impulsos individuais que variam em forma,
intensidade, gênero e direção, logo nos primeiros
contatos com outros seres ficou evidente a tônica da vida:
o conflito!
O conflito nada mais é que o choque de intenções,
interesses e estilos de agir nitidamente diferentes. É impossível
dissociar a vida em sociedade (sejam elas “ditas primitivas” ou
não) da gestão do conflito.
Para complicar um pouco mais nossa situação, nós
que compomos a humanidade, somos animais superiores - embora, às
vezes, não pareça - e possuímos a especial
capacidade de refletir sobre nossos pensamentos e sentimentos.
Desta capacidade
surgem os conflitos entre a nossa realidade interior e a realidade
exterior.
À medida que a vida vai se tornando mais complexa, aumentam
as interações que precisamos ter com as diferenças,
e é exatamente neste nível, onde os conflitos ocorrem
em maior quantidade e em maior intensidade que a nossa maturidade
adaptativa vai dizer se somos felizes ou infelizes, flexíveis
ou intolerantes, saudáveis ou doentes.
No mundo corporativo já falamos muito do capital intelectual,
do capital emocional, do capital moral...
Já é tempo de fazermos um amplo apanhado destes capitais
e reconhecer com clareza que o determinante é o Capital Adaptativo,
ou seja, o conjunto dos saldos dos nossos diversos capitais humanos
que nos permitem nos adaptar às múltiplas situações
de confronto, estresse e risco a que toda e qualquer vida está submetida.
Hoje nossos predadores não são mamíferos dotados
de proeminentes dentes de sabre, mas a pressão por resultado,
as metas, os relatórios, as reuniões, as pessoas despreparadas
que continuam exercendo poder hierárquico, a falta de compreensão
da dimensão humana (pois uma coisa é o discurso e outra
bem diferente é a prática), nosso processo de autodestruição,
etc.
E além de todos estes predadores modernos, a humanidade contemporânea
está fugindo de algo muito sério. Está fugindo
de si mesma. A fobia social, a ansiedade, a depressão e o
desencanto com as instituições estão tornando
a humanidade solitária...
Este fenômeno contraria toda a sabedoria da História
Natural, pois todos os grupos animais sempre souberam intuitivamente
que suas chances de sobrevivência são maiores sempre
que estão juntos.
Somente os mais bem adaptados sobrevivem e, sobreviver é vencer,
primeiramente, a si mesmo. O isolamento, longe de ser uma proteção
contra os “ataques” das diferenças, atua muito
mais como poderoso amplificador de nossos desequilíbrios,
que precisam do convívio para ser notados e corrigidos.
O isolamento não precisa ser físico. Tenho encontrado
pessoas isoladas em empresas com milhares de funcionários – estão
isoladas psicologicamente, reagindo como apêndices de uma linha
de produção cujo produto final desconhece.
Veja que enorme isolamento este: trabalhar para construir algo que
você não sabe exatamente o que significa.
Isto lembra a clássica história de dois carregadores
de pedras que foram entrevistados sobre o que faziam. O primeiro
disse que sua vida era horrível e que tudo o que fazia era
carregar pedras o dia todo. O segundo disse que era muito feliz
porque estava ajudando a construir uma igreja!
A vida é mais rica no encontro com as diferenças, é poderosa
nos conflitos entre nossas realidades internas e externas, mas
vale verdadeiramente a pena quando adquire sentido.
O grande desafio adaptativo de todos nós é agregar
valor à vida, viver uma vida repleta de sentido e propósito.
Não se permita fazer algo sem sentido para alguém
e, em sua interação com as outras pessoas, não
permita que elas façam algo sem sentido por você.