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O capital adaptativo
Por Carlos Hilsdorf



Desde que começamos a fugir dos nossos predadores nos períodos pré-históricos entramos em contato com aquele que seria eternamente nosso grande desafio: a adaptação!

Por sermos dotados de impulsos individuais que variam em forma, intensidade, gênero e direção, logo nos primeiros contatos com outros seres ficou evidente a tônica da vida: o conflito!

O conflito nada mais é que o choque de intenções, interesses e estilos de agir nitidamente diferentes. É impossível dissociar a vida em sociedade (sejam elas “ditas primitivas” ou não) da gestão do conflito.

Para complicar um pouco mais nossa situação, nós que compomos a humanidade, somos animais superiores - embora, às vezes, não pareça - e possuímos a especial capacidade de refletir sobre nossos pensamentos e sentimentos. Desta capacidade surgem os conflitos entre a nossa realidade interior e a realidade exterior.

À medida que a vida vai se tornando mais complexa, aumentam as interações que precisamos ter com as diferenças, e é exatamente neste nível, onde os conflitos ocorrem em maior quantidade e em maior intensidade que a nossa maturidade adaptativa vai dizer se somos felizes ou infelizes, flexíveis ou intolerantes, saudáveis ou doentes.

No mundo corporativo já falamos muito do capital intelectual, do capital emocional, do capital moral...

Já é tempo de fazermos um amplo apanhado destes capitais e reconhecer com clareza que o determinante é o Capital Adaptativo, ou seja, o conjunto dos saldos dos nossos diversos capitais humanos que nos permitem nos adaptar às múltiplas situações de confronto, estresse e risco a que toda e qualquer vida está submetida.

Hoje nossos predadores não são mamíferos dotados de proeminentes dentes de sabre, mas a pressão por resultado, as metas, os relatórios, as reuniões, as pessoas despreparadas que continuam exercendo poder hierárquico, a falta de compreensão da dimensão humana (pois uma coisa é o discurso e outra bem diferente é a prática), nosso processo de autodestruição, etc.

E além de todos estes predadores modernos, a humanidade contemporânea está fugindo de algo muito sério. Está fugindo de si mesma. A fobia social, a ansiedade, a depressão e o desencanto com as instituições estão tornando a humanidade solitária...

Este fenômeno contraria toda a sabedoria da História Natural, pois todos os grupos animais sempre souberam intuitivamente que suas chances de sobrevivência são maiores sempre que estão juntos.

Somente os mais bem adaptados sobrevivem e, sobreviver é vencer, primeiramente, a si mesmo. O isolamento, longe de ser uma proteção contra os “ataques” das diferenças, atua muito mais como poderoso amplificador de nossos desequilíbrios, que precisam do convívio para ser notados e corrigidos.

O isolamento não precisa ser físico. Tenho encontrado pessoas isoladas em empresas com milhares de funcionários – estão isoladas psicologicamente, reagindo como apêndices de uma linha de produção cujo produto final desconhece.

Veja que enorme isolamento este: trabalhar para construir algo que você não sabe exatamente o que significa.

Isto lembra a clássica história de dois carregadores de pedras que foram entrevistados sobre o que faziam. O primeiro disse que sua vida era horrível e que tudo o que fazia era carregar pedras o dia todo. O segundo disse que era muito feliz porque estava ajudando a construir uma igreja!

A vida é mais rica no encontro com as diferenças, é poderosa nos conflitos entre nossas realidades internas e externas, mas vale verdadeiramente a pena quando adquire sentido.

O grande desafio adaptativo de todos nós é agregar valor à vida, viver uma vida repleta de sentido e propósito.

Não se permita fazer algo sem sentido para alguém e, em sua interação com as outras pessoas, não permita que elas façam algo sem sentido por você.

Que a ninguém seja consentido passar por nós sem nos contagiar com sua melhor essência e que nós jamais passemos por alguém sem gravar as nossas melhores digitais em suas almas!


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